Por trás das correntes


Ele amarra os cadarços e segue em frente sem perceber o amor embaixo dos sapatos. Temos a eternidade inteira pra sonhar e descobrir o amor, mas quanto tempo ele ainda vai deixar passar? Se o mar acaba no horizonte, onde é que termina o céu?
Olhos atropelados e por trás das correntes um mar de lágrimas. Não há motivos para chorar, mas o coração que bate desesperadamente é o reflexo das asas amarradas. O tempo vai esmagando a sua esperança enquanto sob o mesmo céu que fez juras de felicidade ele vai se entregando ao fim, sem saber que é só o começo de outro fim. E que a felicidade que procura é passível somente de ser inventada.
No alto da torre de papel só existe o tempo perdido, lembranças de uma história que cabe dentro de um único capítulo. Esta noite, lendo Clarice, imaginou como teria sido seu dia se a tivesse lido antes de amarrar os cadarços. Teria ido trabalhar descalço.
 - Anie Francis


"Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam."
(Clarice Lispector: A Hora da Estrela)

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